A Escrita de Max Franco: Literatura, Filosofia, História e Palavras

22 de abril, 2016 - por Max Franco

A Escrita de Max Franco: Literatura, Filosofia, História e Palavras

Por Prof. Ms. José Aglailson Lopes Pinto

É comum, em nosso ambiente de trabalho, afirmarmos que o nosso aluno não tem interesse pela leitura, assim, dificilmente ler. Mas cabe uma pergunta: o que se produz, em nossa literatura, que instigue não só os nossos adolescentes como o público leitor em geral? Pouca coisa. O que mais se observa é um modelo de texto literário com pretensões a virar roteiro cinematográfico e/ou televisivo. No entanto, e para minha felicidade, me deparei, no último mês de Julho, com dois autores cearenses de estilos diferenciados e instigantes. Trata-se de Max Franco e Bernivaldo Carneiro. Neste texto farei uma breve apreciação da pena do primeiro, pois sobre o segundo já fiz um pronunciamento acerca de seus três primeiros livros. É verdade que lhe devo uma crítica sobre o seu último trabalho, porém farei essa abordagem separadamente ao texto de Max Franco, uma vez que estes autores, como bem disse anteriormente, apresentam estilos próprios.

De Max li duas obras muito bem elaboradas, salvo alguns poucos desvios de informes e índices que poderiam comprometer, mas não comprometem, a linha geral do texto. São dois livros em gêneros diferentes, contudo bem próximos em se tratando de Franco. O primeiro é um livro de crônica, com peças que se aproximam da pena de Rubem Braga, autor referendado por Max, e Milton Dias que, em nosso modesto entendimento, o texto de Franco, mormente nas questões de ordem lírica e reflexiva, se embasa, não por intenção, mas pela formação do cronista que em nada deve aos seus autores de referência. Já o segundo é uma novela policial, Na Corda Bamba, cuja personagem central torna um bandido de nascença uma espécie de caricatura de vilão. Deste último livro iremos tratar numa outra abordagem, pois a literatura de Max Franco é rica em temas, fatos e tipos por demais intrigantes.

No Palavras Aladas e Outras Crônicas, Max nos presenteia com peças literárias que trafegam pela mais apurada filosofia acadêmica até a mais distorcida filosofia de botequim, e esta nos parece mais evidente nas linhas e entrelinhas de Franco:

 

Já confessei que adoraria, ao menos por um pouco, ter a sorte de desligar a minha velha máquina de cismar, mas como não consigo encontrar o interruptor, ela continua em plena força me fornecendo matéria-prima para as minhas cogitações esdrúxulas.[1]

 

Existe algo particular neste cronista, por mais entusiasta que seja a sua intenção de difundir o conhecimento, através de sentenças e citações de nomes relevantes da cultura ocidental, observamos que o destaque maior, quanto à necessidade de compartilhar o conhecimento, centra-se nas vivências de menino, de adolescente e nas idiossincrasias do adulto que, conhecedor do mundo concreto, penetra em um abstracionismo extraído da simples convivência com os tipos que nortearam, norteiam e nortearão a sua vida, concreta ou abstrata. Ainda que tenha este marcante aspecto na sua produção, Franco jamais se deixa contaminar pela presunção intelectual, pois bem sabe ele que a maior arrogância é a intelectual, e um arrogante que se diz conhecedor de áreas diversas, ele só assim se revela, pois não ter a competência que tanto propala. Eis uma ótima lição que o texto de Max nos apresenta. É simples na essência, na estrutura, na linguagem e na cosmovisão, que não passa da Parangaba em termos regionais, mas que se universaliza no tocante ao gênero literário bem conhecido e concebido pelo cearense (sobre)vivente no turbilhão de ensaios entre a ciência, a religião, a música, a literatura e o futebol.

 

Há vezes que me flagro conjecturando se Dickens, Platão, Proust, Dumas e Shakespeare não serviriam perfeitamente como referenciais de ideologias e de posturas éticas das quais a sociedade tanto precisa.

Particularmente, acredito que seja o que for que encaminhe o ser humano à decadência, à solidariedade, à honestidade vem extremamente bem a calhar. Até a religião.[2]

 

No domínio ideológico, a escrita de Max tende ao socialismo humanitário, talvez aquele que Marx, o filósofo alemão, apregoava, mas que bem poucos entenderam e aplicaram. O autor cearense considera a literatura um meio de condução do conhecimento, algo bem próximo do que muitos autores nacionais ou não tentaram. A literatura humaniza e eterniza o ser através das lições de vidas que perpassam pelas páginas em verso ou em prosa, e Max Franco deixa isso patente em sua crônica. Podemos afirmar que o seu texto reflexivo, ainda que carregado de ironias, tende ao ensinamento através do prazer da leitura. O autor abre um canal com o leitor não só através de suas digressões, mas também pelo valor que o texto por si mesmo tende a oferecer. Concordo com a máxima de que ainda não temos leitores capacitados a interagirem com um texto de teor reflexivo no âmbito literário, no entanto não faltam autores e autoras interessados na difusão de matéria além do prazer e do entretenimento. A escrita de Franco dialoga com a sua audiência, mesmo que esta não queira, mas é difícil não participar de uma interação literária que parte de escritos simples e ricos em valores humanos. Neste quesito discordamos de um aspecto de sua reflexão, ao afirmar que o ser humano já tem ideia de ser humano. Não mesmo! Infelizmente muitos seres que se dizem humanos apenas caminham eretos como os demais, entretanto em termos de ideias humanas e humanitárias estão a anos-luz de se afirmarem como humanos, uma vez que não têm discernimento, e a ignorância os habita quase que por uma eternidade. Talvez a literatura seja um meio peculiar para levar o conhecimento aos necessitados. Trata-se de um método, mas não uma ciência, contudo tende a humanizar o indivíduo, desde que este se disponha a trafegar pelas páginas de textos a lhe oferecer atalhos para a sua formação, não de instrução, mas de vivência e experiência humanas.

A literatura não habita o texto de Franco apenas como elemento filosófico, ela também é matéria fundamental para todo bom cronista que se preze, e isso Max tem de sobra. Como bem afirmamos anteriormente, a sua linha literária é simples e não rebusca na linguagem. É direta, incisiva e propositiva. É condição necessária para todo escritor. A palavra livre, liberta e literária é pura paixão que brota nas páginas de Franco sem os apelos do melodrama, muito menos da auto-ajuda. Max pensa e ensina o leitor a pensar sem a obrigação de que as ideias expostas sejam únicas. Por vezes o autor duvida dele mesmo, mas só um ser humano com tamanho senso humanitário é capaz de duvidar do que faz ou deixa de fazer. Para Max, e isso se revela nas linhas de suas crônicas, é preferível pecar pelo que escreve, do que pecar pelo que não escreve. A sua influência europeia nada tem da Europa, é bem daqui, entre Maraponga e Parangaba, ou quem sabe dos sertões dos Inhamuns. Mas Max Franco não se pretende regionalista, e isso se configura em seus escritos. O seu espaço não se limita geograficamente, ainda que se verifique em sua prosa uma busca pela afirmação da linguagem local. O seu espaço é o mundo das letras, das ciências e o da lógica filosófica suburbana, algo que deixa latente numa economia linguística bem ao seu estilo. Max não se localiza nem se cerca da preocupação com os ponteiros do relógio, seu espaço e seu tempo estão longe das conjecturas cartesianas e aritméticas dos tempos de agora. Ele se deixa levar pelo tempo e espaço da escrita. Se manifesta um fato da década de oitenta do século passado, que é o tempo de sua predileção, pois nele houve as grandes descobertas da meninice e adolescência, Franco carrega o leitor para compartilhar desse evento, ainda que esse leitor esteja distante no tempo ou no espaço. Portanto este escritor tematiza o tempo e o espaço sem se preocupar com formas ou estruturas literárias, ele simplesmente vivencia para depois repassar ao leitor sem nenhuma visão maniqueísta de que tempo e lugar bons são os seus. Nada disso, ele até ironiza com esse tipo de ideia. E mais uma vez recorremos aos seus preceitos de impulso literário para atestar que seu texto, a crônica, não é escolhido pelo autor, mas o autor sim é escolhido pelo texto.

 

Fazendo um paralelo apropriado, podemos considerar que a palavra é o mármore do escritor. A diferença é que a palavra não é estática nem fria como a pedra. Palavra, na verdade, é coisa viva. Palavra é troço ligeiro, ninguém amarra não. Não tem estribo nem arreio. Palavra é bicho selvagem, solto correndo desembestado.[3]

 

A palavra para Franco não é apenas a construção morfológica. É muito mais, é a pura certeza de que ela é viva, não é estática. Ela está ali onde se dispuser o seu texto. Para isso recorre a Drummond, que muito bem sabia da importância da palavra. A literatura de Max em seu livro de crônica busca a palavra, o tempo, o espaço, a filosofia certos para um leitor que deseja se alimentar do pão do espírito. São muitas divagações históricas, filosóficas e literárias, que poderiam desandar o texto. São temas mais do que recorrentes na pena de Max, seja na crônica ou na ficção, de que iremos tratar em um outro momento, pois a sua crônica e sua narrativa merecem espaços distintos nas linhas de um modesto crítico. E a literatura não se restringe a vampiros e bruxos, Max está aqui, bem perto para justificar que boa literatura ainda existe, basta sairmos da alienação, da visão simplista de que tudo mudou. Nada mudou, tudo está como sempre esteve. A história se repete, mas com atores diferentes.

 

 

 

 

 

 

 

[1] FRANCO, Max. Palavras Aladas e Outras Crônicas. Fortaleza: Decifra Editora, 2011, p. 79.

[2] Idem, p. 83.

[3] Idem, ibidem, p. 51.